Memória

Casulo de Caminhantes

Por Marilene Lara Carvalho
Em 2003, saí  da Escola Normal de Brasília, onde trabalhava desde 1995. Lá aprendi muito. Fui dar aula no Centro de Ensino Médio Setor Leste(Asa Sul), onde fiquei até o último dia de minha carreira,  27 de julho de 2014. Dava aula para o terceiro ano e fui convidada para a exposição do Projeto Re(vi)vendo Êxodos, no Conjunto Nacional. Foi um trabalho incrível e encantador Era inspirado na obra de Sebastião Salgado.

Entramos de férias e na volta às aulas de 2004, o professor Luís Guilherme expôs o grande desafio do projeto em 2004. O desafio era, além da exposição de fotos e da pesquisa, uma caminhada de Brazlândia-DF a Planaltina-DF. Muitos acharam loucura, inclusive eu, confesso. Mas, abracei a ideia e disse na reunião que não sabia em que poderia dar esse projeto, mas que ajudaria no que precisasse.

Assim, eu era mais uma integrante da equipe de humanas. Equipe essa, que muito fazia para as coisas acontecerem. Envolvi-me  em todas as fases do projeto. O primeiro passo foi a ida à Câmara Legislativa do DF junto com o professor Luís Guilherme para pedir apoio ao grande desafio: Mergulhar os alunos na história da nossa cidade, da sua cultura e de seus hábitos.

Percebemos então que o DF e Brasília eram muito mais do que uma lugar  que abriga políticos de todo o Brasil. Antes da inauguração já havia pessoas de muito valor morando aqui. Assim, nossa equipe se desdobrava até mesmo fora do horário de expediente para corrigir os portfólios. Em incansáveis reuniões, elaborávamos as atividades do projeto e da caminhada, que era a novidade do ano.

Em outubro aconteceu a primeira caminhada do Projeto Re(vi)vendo Êxodos. A caminhada foi de Brazlândia-DF até Planaltina-DF. Tudo isso com o apoio do Exército, dos Bombeiros(DF), da Polícia Militar Florestal do DF, do grupo de Escoteiro João de Barro de sobradinho-DF   e de tantos outros. Como não tínhamos cozinha, eu, meu marido e o professor Esteves levávamos para  o ponto de pouso o café da manhã, o almoço e o jantar para 100 pessoas.

Eu acordava às 3h00min da manhã e começava com meu marido a preparar o café, o leite .Às 4h30min da manhã buscava o pão na padaria para preparar os sanduíches (pão, queijo e presunto) . Tinha que estar no acampamento entre 6h30min e 7h00min. Chegava, servia o café da manhã e os bravos caminhantes saiam para o próximo pouso.
Eu corria para a Vila Areal, onde buscava o almoço e levava onde eles estivessem. Terminava o almoço e repetia o processo no jantar. Assim foi, dia após dia, durante 7 dias.

Nos pousos aconteciam momentos inesquecíveis: aulas (de todas as disciplinas), rodas de conversas ( com pessoas da comunidade),  poesias, danças, músicas.  Muitas das atividades eram realizadas em volta da  fogueira. Os filhos são escoteiros... amo atividades próximas à fogueira!!!!!

No último dia fiz a galinhada no Colégio Agrícola de Planaltina e levei para servir na chegada, naquela praça da cidade satélite. Foi inesquecível o encontro de todos com os familiares. Uma experiência ímpar.

Assim, sucederam -se várias caminhadas... Cada uma com seu charme: A de Pirenópolis... a de Formosa... a de Sagarana... Cristalina... Juscelândia!!! Em 2008 comemorávamos o centenário de João Guimarães Rosa e, finalmente, ultrapassamos os limites do DF e de Goiás. Momento em que alcançamos o Estado de Minas Gerais, em Sagarana.

Perto de Buritis, num assentamento do MST, eu e a professora Mary demos uma aula memorável dentro de uma Igreja, onde não havia nem banco para sentar, mas estava repleta de pessoas atentas. Levamos todo o equipamento e acabamos a aula com o final do livro de João Guimarães  Rosa, Grande Sertão Veredas: Riobaldo, diante do corpo de Diadorim, diz: Este é o amor encantado, que vai seguir comigo a minha vida inteira...

No final da aula, ao som de Luar do Sertão, na voz de Milton Nascimento... ao sair da igreja, tinha uma lua de todo tamanho, como recompensa. Era de encher, não só o céu, mas também os olhos e consequentemente a alma.

Assim, poderia relatar todas as outras atividades e caminhadas, mas me falta espaço nesse precioso instrumento. Quero deixar registrado que não só eu, mas toda a minha família se tornou mais humana e adquiriu conhecimentos para toda a vida. Para o projeto Re(vi)vendo Êxodos toda a minha reverência. Bravo, bravo, bravíssimo!
Marilene Lara Carvalho

Marilene Lara Carvalho

Professora por quase 30 anos da Secretaria de Educação do DF, aposentada.
Mãe, evangélica de esquerda,  envolvida em lutas sociais sempre!
Apaixonada prelo Projeto Re(vi)vendo Êxodos!

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